OBSTÁCULOS INTRANSPONÍVEIS ENTRE O DESEJÁVEL E O REALIZÁVEL


Fala-se muito de violência doméstica mas, pessoalmente, chamar-lhe-ei apenas violência em geral, porque hoje generalizou-se de tal maneira esta forma de imposição do poder de uns sobre outros, que prefiro não fazer distinções entre uma e outra.

Ao longo da minha vida - que já vai longa! - nunca senti tão profundamente o que está a acontecer, no plano social da luta contra a violência. Parece-me existir uma considerável dose de hipocrisia, da parte do poder e das instituições, quando tomam certas posições, relativamente à urgente necessidade de acabar com a escabrosa violência, generalizada, entre focos da população portuguesa e obstáculos, ocultos ou não, que surgem de todos os lados, no sentido de travar as posições a assumir, travão esse que impossibilita a realização do que seria desejável. Instalou-se um absoluto caos entre as diversas fontes de comando e de actuação para solução do problema, e a população menos instruída - e talvez farta de "levar no corpo" - parece procurar na violência a sua forma de manifestar-se vítima e/ou exorcista de si mesma.
Com o que expus acima, gostaria de expressar a forma como encaro as possíveis causas mínimas do que está a passar-se na nossa sociedade, causas essas muito medíocres relativamente a um manancial de muitíssimas outras. Assim sendo, e consciente de que tudo o que pudesse expor como óptica pessoal do problema poderia ser julgado como sendo anti-democrático - quando sou completamente o inverso disso mesmo - exporei apenas pontos que carecem de uma reflexão profunda, começando pelos mais importantes, indiscutivelmente. Irei repetir-me em alguns que já referi, aqui e ali, em textos anteriores, os quais pecam por antagonismos que se vão manifestando, os quais, de algum modo - mesmo que por diversificadas actuações - poderão alterar os respectivos efeitos em diferentes vertentes.

1. É inadmissível a permissão de serem transmitidos certos tipos de programas televisivos ou a edição
de capas de revista de novelas exibindo imagens de uma violência macabra, expondo-as aos olhos
de, por exemplo, jovens em formação, muitos dos quais são já defensores da violência durante o
namoro, o que estamos a constatar acontecer em larga escala.
2. Igualmente inconveniente é, também, a permissão de serem vendidos produtos alimentares muito
prejudiciais à saúde - e não só! - e, paralelamente, ser apregoada à população, pelas mais variadas
fontes, a necessidade de respeitar uma alimentação saudável. “Dando uma no cravo e outra na
ferradura”, não se chegará a lado algum. Sabemos da existência de muita ignorância neste país e
dizer-se que as pessoas são livres de comerem, permanentemente, o que muito bem lhes aprouver,
como é o caso do que acontece em milhares de famílias, estamos a incorrer numa situação
desagradável no que se refere à formação de uma juventude saudável. De uma óptima alimentação
se constroem homens de mente sã. Não podendo, obviamente, ser imposto o fim de uma má
alimentação, haveria, no mínimo, a necessidade de realizar atraentes e permanentes campanhas de
consciencialização. Infelizmente retardaria o propósito, mas valeria a pena tentar-se. Mais... ser
pretendida uma boa formação dos jovens quando, de uma grande maioria deles fazem parte já
auténticos heróis de sobrevivência, é uma utopia. Esta situação choca com a realidade de muitos
deles serem já referenciados como sendo vítimas directas do tipo de vida que são levados a
conduzir, face às suas carências.
3. É inadmissível o descalabro do aumento exagerado dos preços de produtos alimentares, quando
além do miserável ordenado mínimo e do subsídio de reincerção que muitos recebem, a população
está a ser altamente prejudicada pelas inúmeras desonestidades praticadas por um ou por outro
elemento do governo e/ou de importantes responsáveis de instituições e de grandes empresas -
desonestidades essas que empobrecem o país. Não esqueçamos que a população será sempre – de
uma maneira ou de outra - quem paga os prejuizos financeiros que o governo possa sofrer.
4. De que serve o aconselhamento sobre prevenções a bem da saúde pública, quando o que é
facultado a quem não tem um rendimento mínimo digno, gera milhares de doentes que, por sua
vez, são expostos a situações constrangedoras ao recorrerem aos hospitais e/ou centros de saúde?
Esta posição é vergonhosa!
5. A tendência hoje, em Portugal, gira neste sentido: o teu valor como pessoa é proporcional ao valor
do teu património. Regra geral, só escapa desta classificação quem teve a sorte de adquirir uma boa
formação moral e cultural, e uma robustez espiritual fora dos limites considerados normais.
6. Saúde e Educação são dois temas de uma importância social preciosíssima! Serem permitidas
condições de trabalho absolutamente condenáveis, a profissionais de saúde e de educação,
inspiram na população o quê, em boa verdade? Resiliência!!! O problema é que muitos idosos e
mesmo até os mais jovens, não aguentam o peso que esse mesmo problema lhes pôe em cima.
Admite-se que haja doentes a recorrer às urgências e não haja médicos de serviço para os socorrer,
acabando alguns por morrer?
7. Entre os que vivem miseravelmente e os que “se vão safando”, circulam os que têm rendimentos
superiores àquilo de que necessitam para viver desafogadamente e sem preocupações... já para não
referir os que, em quaisquer situações, marimbam sempre para o que vai acontecendo no seu País.

Sente-se, em Portugal, uma enorme falta de ESTOICISMO, da parte dos mais carenciados, o que é perfeitamente compreensível dadas as suas condições de vida. Esta falta é chocante quando confrontada com uma enorme OSTENTAÇÃO da parte de alguns dos grandes priviligiados existentes, e de uma considerável dose de INCOMPETÊNCIA da parte de outros que têm a superior responsabilidade de
governar o nosso querido País.


Data da criação deste conteúdo: 2023-07-24
Texto e conceito visual: Maria Letr@
Imagem gerada por plataforma de A.I.